Pinto Varela - Guitarrista

Pinto Varela "o Puxadinhas"

(24 de Dezembro de 1935 – Setembro de 2012)

Sebastião Gomes Pinto Varela é um nortenho natural de Sabrosa concelho de Vila Real. Seu pai, João Varela Pinto era músico e tocava Clarinete numa Banda de Provezende. Mas a arte da música já vinha do seu avô, Júlio Varela Pinto que também era músico de Banda. O seu primeiro instrumento foi o Bandolim, com 5 anos de idade. Grande amigo de José Nunes como "companheiro de Ramo" no dizer de Pinto Varela e pelo facto da mãe de José Nunes ser sua conterrânea. É um grande estudioso da construção da Guitarra Portuguesa, tendo elaborado um esquema de construção deste instrumento baseado numa Guitarra do construtor Álvaro Merceano da Silveira. Pinto Varela fez parte do conjunto de Guitarras que acompanhou D. Amália Rodrigues durante muitos anos. Além de guitarrista tem o seu pequeno negócio de venda de instrumentos usados como Guitarras Portuguesas, Violas de Fado, Bandolins, etc. Na sua casa em Benfica montou um pequeno estúdio de gravação, dedicando-se ao arquivo de vídeos e antigas gravações de Fado.

 

Foi homenageado muitas vezes nas suas actuações no estrangeiro

 

Histórias do Guitarrista e amigo Pinto Varela

A Caixa das Unhas dos mortos

Pinto Varela tinha uma caixa das "Unhas Postiças", que tinham sido utilizadas por diversos Guitarrista, que não se falavam. Conheço todos os "proprietários das ditas Unhas", que como lógico não vou divulgar os nomes. Quando sabia que um Guitarrista não falava com um outro (os famosos Colegas de Ramo - expressão utilizada por Pinto Varela) pedia emprestada uma unha ao dito cujo (outras vezes não pedia) com a intenção de a estudar. As unhas "Unhas" eram colocadas numa caixa. Já que não queriam estar juntos... pelos menos as "Unhas estavam.

Os Fadistas e Cantadeiras que cantavam em tons sustenidos.

Acompanhei à Viola de Fado o Pinto Varela, principalmente quando ia substituir uma "Parelha de de Fado - Guitarrista e Violista" que tinha um contracto mais vantajoso do que o sítio onde trabalhavam. Um certo dia num restaurante que dava Fados um dia por semana, apareceu uma senhora que queria cantar um Fado num Tom sustenido. Pinto Varela olhou-a com atenção e respondeu: Podia ter avisado que eu trazia um Guitarra com sustenidos, porque esta que tenho não tem sustenidos. Se não é músico é bem natural que não ache piada, mas pode perguntar a um músico onde é que está a graça.

As conversas de Pinto Varela com José Lúcio

Foram longas as conversas (ao telefone e outras vezes nos "Estúdios Lux - casa de Pinto Varela" que tivemos. Pinto Varela gostava muito de fazer as suas modificações e falava-mos muitas vezes ao telefone para trocar dúvidas. Mas diga-se em boa verdade que ele não tinha muito jeito para reparações. Quando a reparação corria mal lá ia "chatear" o grande Guitarreiro Manuel Cardoso ou mais tarde o filho Óscar Cardoso (a quem Pinto Varela chamava do "Fura Paredes... ao Óscar). Um certo dia em que Pinto Varela estava a medir a colocação das travessas numa Guitarra, com uma lâmpada de 60 watts no interior da mesma, resolveu telefonar-me para esclarecer uma dúvida. A conversa animou-se e a famigerada lâmpada lá ficou acesa mais de meia hora. Passado um minuto telefonou-me outra vez dizendo que a Guitarra tinha uma mama no tampo. Respondi-lhe que nunca tinha visto Guitarras com mamas! Lá me explicou o sucedido e mais uma vez o Manual Cardoso teve que colocar um tampo novo na Guitarra.

Os Estúdios Lux

Os Estúdios Lux eram a casa de Pinto Varela em Benfica. Já vi casas desarrumadas, mas os Estúdio Lux ganhavam sem dúvida o 1º prémio. Havia cassetes, fitas de arrasto (bobines de gravação), cassetes de VHS, Guitarras, etc. tudo espalhado numa desordem que nem ele sabia como procurar. Um dia fizemos uma troca de um estojo de "Banjolim" por um Cavaquinho. Disse-me que ia guardá-lo num sítio para que quando eu levasse o Cavaquinho fazer-mos negócio. Quando levei o Cavaquinho o estojo estava tão bem guardado que não apareceu. Deixei lá ficar o Cavaquinho... mas o estojo nunca mais apareceu.

O Diálogo dos Periquitos

Numa conversa telefónica disse-me que estava a gravar (em estereofonia) o diálogo dos dois Periquitos que tinha. Queria entender a sua linguagem. Depois da gravação do diálogo, reproduzia o som do "Periquito A" e esperava a resposta do "Periquito B". Penso que nunca chegou a fazer nenhum dicionário de linguagem de Periquitos... digo eu, mas ouvi muitas vezes as gravações. Mas Pinto Varela esmerou-se. Na cozinha tinha duas gaiolas separadas de 1,5 metros com um microfone adaptado a cada gaiola, para gravar em esterofonia. Lá que falavam... falavam, mas como não tinham legendas nunca entendi nada da conversa.

As Desavenças entre Guitarristas

Eu não tenho nada a ver com o assunto, pois sou amigo do Guitarrista em questão, que sempre teve a amabilidade de me oferecer os seus trabalhos, quando trabalhava na Rádio Comercial.

O último disco de José Nunes editado após a sua morte, uma iniciativa de Pinto Varela.

A Guitarra da capa do disco, foi construída pelo Guitarreiro Domingos Cerqueira, que tinha a sua oficina na Rua de Costa Cabral 388 Porto. Com ilhargas e fundos em "acer" e o braço em peça única entalhado na "Voluta" em forma de Dragão pelo entalhador "Lisboa".

A mesma Guitarra serviu para a capa de um disco de Ada de Castro. Pinto Varela nunca se cansava de emprestar os seus instrumentos para dar mais dignidade à Guitarra Portuguesa. Sendo um estudioso da sua construção media cuidadosamente as suas medidas par que os Guitarreiros pudessem usufruir dos seus conhecimentos.

Ada Antunes Pereira
Ada de Castro, nasceu a 13 de Agosto de 1937, no Castelo de S. Jorge, berço da Grande Lisboa. Ainda em criança, começou a fazer teatro amador, mantendo-se nessa área até 1959.
Teve a sua estreia como profissional do Fado no restaurante típico “O Faia” da Capital Lusa a 13 de Março de 1960, tendo a partir dessa data actuado nas melhores casas de espectáculo (incluindo os Casinos) de Portugal, tendo mantido paralelamente a vertente do teatro.

Pinto Varela guardava tudo nos seus Estúdios "LUX". Qualquer papel servia para desenhar os cavaletes de Guitarra, estudando aqueles que melhor som davam (no seu entender). Até lá fui encontrar um velho comprovativo de compra de uma Guitarra, que mais tarde lhe foi vendida. Estou a digitalizar todos os desenhos de medidas, para que os estudioso do assunto possam ter acesso à pesquisa deste amante da Guitarra Portuguesa.

Todos é que sabemos tudo! Se Pinto Varela já não está entre nós que fique o carinho que dedicou à Guitarra Portuguesa.

Cartazes de espectáculos onde Pinto Varela esteve no Fado.

 

Recordações de Pinto Varela no Fado

 

 

 

Tudo ficou por dizer, mas... o importante é ficar para a história o que Pinto Varela deu ao Fado.